Total de visualizações de página

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

40 ANOS DE FESTIVAL EM SÃO MIGUEL ARCANJO


40 ANOS DE FESTIVAL EM SÃO MIGUEL ARCANJO
Comentar que São Miguel Arcanjo é uma terra de músicos desde os tempos do tenente Urias, seria repetir fato histórico amplamente documentado e comentado aos quatro cantos. Agora, esperar que esta nova geração, a qual ganhou a pecha de juventude sem memória, resgatar lá no histórico, trágico e triste começo dos anos 70 o grito de liberdade de uma juventude amordaçada pela ditadura, cuja única válvula de escape eram os festivais de música que começaram na TV Excelsior com a música “Arrastão”, para depois, quando a Record encampou a idéia, converter-se no legítimo brado de liberdade, à propagar gênios como Vandré, Caetano e Chico. Os festivais contaminaram a juventude daquela década por anos seguidos e São Miguel Arcanjo não podia ficar de fora. Principalmente, depois do jovem compositor Auro Antonio dos Santos Terra, o Lollo, conquistar com sua composição “Musa”, o festival do Instituto Peixoto Gomide em Itapetininga, na impecável interpretação do João de Góes em parceria com a bela Regina Aboarrage, sob o magistral violão do autor.
Festival contaminou a juventude no sentido de que essa geração saiu em busca de um espaço nos certames que aconteciam pela região, desde Tatuí, a capital da música, até o Vale do Ribeira. A mocidade precisava de um espaço para soltar sua voz. O próprio Lollo, coadjuvado pelo Aparício Dias à esse tempo buscavam conquistar o Festival da Canção Universitária, não só para mostrar a arte de ambos, mas para divulgar a pura música, essência da nossa terra, a qual era sem dúvida a voz da rebeldia do jovem sãomiguelense, até então “sem caminho, sem história, sem estrada, mas feliz” como escreve Aparício em uma de suas composições mais conhecidas. Ecos de uma São Miguel Arcanjo que já tinha perdido o jovem Luiz Fogaça Balboni para um movimento até então desconhecido na pequena cidade onde se vivia da agricultura de manutenção, mas e que assistiu assustada a escaramuça guerrilheira de Carlos Lamarca por toda a extensão da estrada que liga São Miguel Arcanjo à Sete Barras, a qual nem sequer vislumbrava ter um estatus turístico de estrada parque, ou qualquer coisa que o valha. Era um caminho inóspito, quase deserto, propício coiteiro para um militar rebelado e seus acólitos de ideologias esquerdistas.
Essa turbulência que modificou a face e história do país mexeu com o desejo do jovem Miguel Nogueira Machado. Este queria realizar na cidade, a qual mal tinha meia dúzia de ruas asfaltada e uma eletricidade precária, um festival de música onde pudesse reunir nomes famosos, tornando essa urbe desconhecida num celeiro de compositores. Era sua intenção transformar São Miguel Arcanjo numa cidade turística semelhante a Guarapari, no Espírito Santo.Mas o moço sonhador esbarrava na falta de interesse dos políticos locais com relação à movimentos culturais, porque em todos os tempos a cultura, fosse ela na área que fosse, jamais se converteria em voto e por isso não era algo para se investir. Aliaram à essa idéia, como forma legitima de expressão e protesto o próprio Lollo, que à essas alturas já era um veterano em festivais, o Aparício Dias e também o maior trombonista das Américas, Renato Cauchiolli, filho da terra e que nunca deixou de reconhecer seu “status” de sãomiguelense da gema, mesmo quando tocava para o Rei Roberto Carlos, sob a batuta do maestro Eduardo Lages. Cauchiolli peregrinou por todas as casas de espetáculos e emissoras de TV, facilitando acesso ao Guei e seu grupo jovem formado pelo Osmar Rodrigues dos Santos, pelo Ariovaldo Araujo, o Vadico e pelos irmãos Shoite e Shuite Ueda. Foram tratar de viva voz com nomes famosos do show bizz nacional. Não se pode deixar de lado dessa plêiade de incentivadores, o empresário Henry Haddade que abraçou a causa, oferecendo até sua fazenda para pernoite dos músicos. Entretanto, se o sonho da equipe era promover um festival para colocar em evidência uma cidade esquecida, quase no fim do mundo, com estradas em condições precárias desprovida de asfalto, que se acontecesse o espetáculo numa noite de chuva, a atração poderia ficar atolada nos lamaçais do Gramadinho sem condição se seguir em frente, o sonho se realizou por inteiro numa. Cidade que não possuía sequer um hotel condizente para um cantor de gabarito acostumado em luxuosos camarins. Esses entraves e mais alguns, como o alto custo do aluguel do Cine Teatro São Miguel foram vencidos com dificuldades. E naquela noite de julho, há 40 anos, além de ser levado à efeito o primeiro festival da cidade, surgia pela primeira vez, em letras garrafais, no palco e nos ingressos, o slogan que a cidade carrega com orgulho até hoje: “São Miguel Arcanjo, a capital da uva Itália”.
Quando o jovem Dudu Terra decidiu há alguns anos trazer à tona o Prêmio Lollo Terra de Música, era evidente sua justa intenção de prestar homenagem ao seu pai, considerado verdadeiro ícone da música local e regional, o qual carrega no seu histórico de músico e compositor, trabalhos gravados por Emílio Zapata, Tim Maia, Eduardo Araujo e Silvinha. O que nós, são-miguelenses sem memória não esperávamos, era que o Dudu Terra iria deixar para sempre, registrado nos anais da história, a passagem do 40º aniversário, da força motriz musical que impulsionou por quase uma década essa reunião anual de intelectuais até de outros Estados na pequena cidade, assim como o incentivou os compositores principiantes da terra, os quais tiveram a oportunidade, além de mostrar suas obras, desfilaram ao lado de grandes nomes como Walter Franco compositor de trilha sonora para novela de TV, maestro Nelson Ayres do jazz Big band, e a cantora, hoje atriz global, Rosa Maria Collins, a qual subiu ao palco do Cine Teatro São Miguel para defender uma composição do seu amigo pessoal Auro Antonio dos Santos Terra, o Lollo.
Esses quarenta anos de história poderiam passar batidos, no mesmo ritmo dos batidões country, ou no mesmo batidão do “rap” e reggae, ou até com a música de conteúdo vazio, do tal Luan Santana. Ainda bem que por herança do saudoso Alcindo Terra, homem de princípios e sábias palavras, Dudu guarda dentro de si esse amor pela terra e muito tem feito pela cultura à ponto de não deixar cair no esquecimento, essas quatro décadas, que além de modificarem o pais, transformou também a pequena cidadezinha, até então acanha e carente de grandes realizações.