40 ANOS DE FESTIVAL EM SÃO MIGUEL ARCANJO
Comentar
que São Miguel Arcanjo é uma terra de músicos desde os tempos do tenente Urias,
seria repetir fato histórico amplamente documentado e comentado aos quatro
cantos. Agora, esperar que esta nova geração, a qual ganhou a pecha de juventude
sem memória, resgatar lá no histórico, trágico e triste começo dos anos 70 o
grito de liberdade de uma juventude amordaçada pela ditadura, cuja única válvula
de escape eram os festivais de música que começaram na TV Excelsior com a música
“Arrastão”, para depois, quando a Record encampou a idéia, converter-se no
legítimo brado de liberdade, à propagar gênios como Vandré, Caetano e Chico. Os
festivais contaminaram a juventude daquela década por anos seguidos e São Miguel
Arcanjo não podia ficar de fora. Principalmente, depois do jovem compositor Auro
Antonio dos Santos Terra, o Lollo, conquistar com sua composição “Musa”, o
festival do Instituto Peixoto Gomide em Itapetininga, na impecável interpretação
do João de Góes em parceria com a bela Regina Aboarrage, sob o magistral violão
do autor.
Festival
contaminou a juventude no sentido de que essa geração saiu em busca de um espaço
nos certames que aconteciam pela região, desde Tatuí, a capital da música, até o
Vale do Ribeira. A mocidade precisava de um espaço para soltar sua voz. O
próprio Lollo, coadjuvado pelo Aparício Dias à esse tempo buscavam conquistar o
Festival da Canção Universitária, não só para mostrar a arte de ambos, mas para
divulgar a pura música, essência da nossa terra, a qual era sem dúvida a voz da
rebeldia do jovem sãomiguelense, até então “sem caminho, sem história, sem
estrada, mas feliz” como escreve Aparício em uma de suas composições
mais conhecidas. Ecos de uma São Miguel Arcanjo que já tinha perdido o jovem
Luiz Fogaça Balboni para um movimento até então desconhecido na pequena cidade
onde se vivia da agricultura de manutenção, mas e que assistiu assustada a
escaramuça guerrilheira de Carlos Lamarca por toda a extensão da estrada que
liga São Miguel Arcanjo à Sete Barras, a qual nem sequer vislumbrava ter um
estatus turístico de estrada parque, ou qualquer coisa que o valha. Era um
caminho inóspito, quase deserto, propício coiteiro para um militar rebelado e
seus acólitos de ideologias esquerdistas.
Essa
turbulência que modificou a face e história do país mexeu com o desejo do jovem
Miguel Nogueira Machado. Este queria realizar na cidade, a qual mal tinha meia
dúzia de ruas asfaltada e uma eletricidade precária, um festival de música onde
pudesse reunir nomes famosos, tornando essa urbe desconhecida num celeiro de
compositores. Era sua intenção transformar São Miguel Arcanjo numa cidade
turística semelhante a Guarapari, no Espírito Santo.Mas o moço sonhador
esbarrava na falta de interesse dos políticos locais com relação à movimentos
culturais, porque em todos os tempos a cultura, fosse ela na área que fosse,
jamais se converteria em voto e por isso não era algo para se investir. Aliaram
à essa idéia, como forma legitima de expressão e protesto o próprio Lollo, que à
essas alturas já era um veterano em festivais, o Aparício Dias e também o maior
trombonista das Américas, Renato Cauchiolli, filho da terra e que nunca deixou
de reconhecer seu “status” de sãomiguelense da gema, mesmo quando tocava para o
Rei Roberto Carlos, sob a batuta do maestro Eduardo Lages. Cauchiolli peregrinou
por todas as casas de espetáculos e emissoras de TV, facilitando acesso ao Guei
e seu grupo jovem formado pelo Osmar Rodrigues dos Santos, pelo Ariovaldo
Araujo, o Vadico e pelos irmãos Shoite e Shuite Ueda. Foram tratar de viva voz
com nomes famosos do show bizz nacional. Não se pode deixar de lado dessa
plêiade de incentivadores, o empresário Henry Haddade que abraçou a causa,
oferecendo até sua fazenda para pernoite dos músicos. Entretanto, se o sonho da
equipe era promover um festival para colocar em evidência uma cidade esquecida,
quase no fim do mundo, com estradas em condições precárias desprovida de
asfalto, que se acontecesse o espetáculo numa noite de chuva, a atração poderia
ficar atolada nos lamaçais do Gramadinho sem condição se seguir em frente, o
sonho se realizou por inteiro numa. Cidade que não possuía sequer um hotel
condizente para um cantor de gabarito acostumado em luxuosos camarins. Esses
entraves e mais alguns, como o alto custo do aluguel do Cine Teatro São Miguel
foram vencidos com dificuldades. E naquela noite de julho, há 40 anos, além de
ser levado à efeito o primeiro festival da cidade, surgia pela
primeira vez, em letras garrafais, no palco e nos ingressos, o slogan que a
cidade carrega com orgulho até hoje: “São Miguel Arcanjo, a capital da uva
Itália”.
Quando o jovem
Dudu Terra decidiu há alguns anos trazer à tona o Prêmio Lollo Terra de Música,
era evidente sua justa intenção de prestar homenagem ao seu pai,
considerado verdadeiro ícone da música local e regional, o qual carrega no seu
histórico de músico e compositor, trabalhos gravados por Emílio Zapata, Tim
Maia, Eduardo Araujo e Silvinha. O que nós, são-miguelenses sem memória não
esperávamos, era que o Dudu Terra iria deixar para sempre, registrado nos anais
da história, a passagem do 40º aniversário, da força motriz musical que
impulsionou por quase uma década essa reunião anual de intelectuais até de
outros Estados na pequena cidade, assim como o incentivou os compositores
principiantes da terra, os quais tiveram a oportunidade, além de mostrar suas
obras, desfilaram ao lado de grandes nomes como Walter Franco compositor de
trilha sonora para novela de TV, maestro Nelson Ayres do jazz Big band, e a
cantora, hoje atriz global, Rosa Maria Collins, a qual subiu ao palco do Cine
Teatro São Miguel para defender uma composição do seu amigo pessoal Auro Antonio
dos Santos Terra, o Lollo.
Esses quarenta anos de história poderiam passar batidos,
no mesmo ritmo dos batidões country, ou no mesmo batidão do “rap” e reggae, ou
até com a música de conteúdo vazio, do tal Luan Santana. Ainda bem que por
herança do saudoso Alcindo Terra, homem de princípios e sábias palavras, Dudu
guarda dentro de si esse amor pela terra e muito tem feito pela cultura à ponto
de não deixar cair no esquecimento, essas quatro décadas, que além de
modificarem o pais, transformou também a pequena cidadezinha, até então acanha e
carente de grandes realizações.